terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A vida não pede passagem. Capítulo 1


    Tudo o que eu pensava era verdade, Renato havia mesmo me deixado, e com apenas três anos de casada eu me via em um abismo. Não por que ele quisera de mim tão pouco, mas por que eu havia provado a mim mesma que não valia muita coisa.
   O sentido da minha vida começou a mudar quando conheci o meu futuro ex-marido. Ele era tão comum e tão imperfeito que eu achei que poderia colocar nele tudo o que eu queria para mim, todas as minhas expectativas, todos os meus temores e foi ali mesmo onde eu errei. Depois de muito tempo de namoro, eu achei mesmo que o conhecia e que era a hora de nos casar. Não sei onde parei de pensar, onde dei um passo em falso, mas me corrigiam se eu tiver errada, uma mulher jovem e apaixonada não vê nada além da sua paixão. E foi isso que eu fiz, segui minha paixão sem ao menos pensar nas consequências.
   Não demorou muito e as brigas vinheram, cada vez mais contínuas e cada vez mais graves. E tudo o que eu pensava era que isso tudo não passava apenas de uma fase rápida. As coisas só pioraram e acho que hoje de manhã ele se deu conta que não daria para passar a vida assim, brigando.
   Ainda não tomei coragem de ligar pra minha mãe, eu sei o que ela vai dizer que eu fui precipitada, que nunca teria dado certo, que a vida não é brincadeira, que casamento é coisa séria e aquela velha pergunta que não sai da boca dela “E agora?”. Eu realmente odeio essa pergunta! Sabe por quê? Porque indica fraqueza e eu não suporto demostração de fraqueza. Meu pai também era assim, até morrer de uma das maiores fraquezas que o ser humano poderia ter: o câncer.
   Virei uma mulher menos fraca depois da morte dele e com certeza foi por isso que não abandonei o meu casamento primeiro, porque não queria mostrar a ninguém que eu estava sendo fraca, que eu estava desistindo. Tentei até os últimos minutos empurrar a minha vida fracassada com a barriga. Agora estou sentada em uma cama olhando pra um guarda-roupa vazio e me perguntando: e agora?
    Pensei em ligar pra Penélope, ela saberia o que fazer nessas horas. Penélope é a minha melhor amiga. Uma pessoa que não temi nada a não ser um compromisso sério. Ela é mais impaciente do que eu, a pessoa que me defendia das brigonas. Isso porque ela era uma das brigonas. Nos conhecemos na 2ª série, ela era a gordinha que queria intimidar todos e eu era a magrinha que todos gostavam. Nos odiávamos. Então depois de dois anos gostando do mesmo menino, percebemos que tínhamos mais coisas em comum do que irmãs siamesas. Ela é o racional e eu o sentimental, sempre foi assim.
    Ela dizia que o Renato era um babaca e que o que tínhamos não era nada saudável, mas mesmo assim aceitou o pedido de madrinha. E realmente ela tinha razão, por mais que me doa admitir. O Renato era um babaca, e eu também. Pensei em voltar a dormir e não acordar nunca mais várias vezes, tanto quando a gente estava em crise no namoro quanto agora. A verdade é que estou com raiva da esperteza dele. Ele pensou bem mais rápido do que eu. Aproveitou que eu estava dormindo, arrumou as malas e foi embora. E cá estava eu, sem emprego e sem marido.

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